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Sofosbuvir: novo medicamento para o tratamento da febre amarela?

O Sofosbuvir, um medicamento aprovado para o tratamento da hepatite C, tem sido utilizado no tratamento da febre amarela em algumas instituições no Brasil. O surto atual da doença já conta com 1.286 casos notificados, 353 casos confirmados e 98 óbitos apesar das intensas campanhas de estímulo à vacinação. Como esta doença não causava surtos no país há muito tempo, o tratamento preconizado de suporte para os pacientes não é capaz de reverter os quadros graves da doença.

Nos últimos 10 anos, inúmeros antivirais foram desenvolvidos para o tratamento da hepatite C, uma doença causada pelo vírus da hepatie C (HCV) que pertence à família Flaviviridae, a mesma família à qual pertencem o vírus da dengue, o vírus Zika e o vírus da febre amarela. Portanto, estes vírus são “parentes próximos”.

Sofosbuvir é um análogo de nucleotídeo (nucleotídeo é um dos componente do código genético e análogo é uma molécula semelhante ao nucleotídeo verdadeiro) que inibe a enzima que replica o genoma do vírus da hepatite C, a RNA polimerase viral. Este medicamento é utilizado sozinho ou em associação com outros antivirais no tratamento de pacientes com hepatite C crônica, uma doença antes incurável.

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O Sofosbuvir é também empregado em pacientes com hepatite C  antes do transplante para evitar a recorrência da doença após o transplante hepático. Em combinação com outros antivirais, o Sofosbuvir tem apresentado eficácia no tratamento de pacientes com recidiva de hepatite C e que não se curaram em uma primeira tentativa de tratamento.

Apesar de sua comprovada eficácia e segurança, o tratamento com o Sofosbuvir não está acessível para a grande maioria dos 170 milhões de infectados pelo HCV no mundo devido ao elevado custo deste medicamento.

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Segundo a Fiocruz, o preço inicial do medicamento, nos Estados Unidos, foi de US$ 84 mil por tratamento (US$ 1 mil por comprimido) em 2016. A produção do medicamento pela Fiocruz e um consórcio de empresas farmacêuticas poderia reduzir este custo para U$ 3 mil/tratamento. O impacto desta iniciativa seria enorme para o Brasil que tem cerca de 1,5 milhão de brasileiros infectados com o vírus da hepatite C. Atualmente, o laboratório fabricante parece estar vendendo um frasco com 28 drágeas por R$74.000,00!

Em janeiro de 2017, um grupo de pesquisadores, ligados à Fiocruz e a outras instituições de pesquisa do Rio de Janeiro, publicou um artigo com comprovações de que o sofosbuvir era um potente inibidor da replicação do vírus da Zika (ZIKV) em cultivos celulares em laboratório, inclusive em cultivos de células hepáticas.

Fonte: Fiocruz
Fonte: Fiocruz

As imagens de microscopia acima mostram que o Sofosbuvir  protege as células neurais contra o vírus Zika: (a) células-tronco neurais antes da infecção, (b) morte celular é provocada pela infecção, (c) concentração baixa de sofosbuvir (de 2μM) evita parcialmente a morte da células e (d) concentração maior (de 10μM) de sofosbuvir protege completamente as células (imagens: Sacramento, C. Q. et al.)

Este estudo brasileiro foi a base para que agora, com o surto de febre amarela no Brasil, o Sofosbuvir fosse considerado como um provável fármaco a ser utilizado em pacientes que evoluem para as formas graves da doença. Como o Vírus da Febre Amarela (YFV) pertence à mesma família Flaviviridae que o vírus da Zika e como o Sofosbuvir atua sobre uma enzima viral (a RNA polimerase viral) que é  muito semelhante em todos os vírus desta família, seria  de se esperar que o medicamento fosse também capaz de inibir o vírus da febre amarela.

Esta comprovação foi feita recentemente por mais uma equipe de pesquisadores brasileiros. O estudo publicado no dia 15 de fevereiro de 2018 relata o efeito inibitório do Sofosbuvir sobre a replicação do vírus da febre amarela (YFV) em cultivos de células hepáticas. Além disso, o medicamento protegeu camundongos contra a perda de peso e a morte pela doença.

Este estudo deverá aumentar o uso compassivo do Sofosbuvir em em instituições de saúde localizadas na região sudeste do Brasil. Entende-se por uso compassivo o emprego de um medicamento para uma finalidade que ainda não está aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

Um caso recente sugestivo de sucesso do uso do Sofosbuvir no tratamento de febre amarela foi relatado para um paciente grave do município de Juiz de Fora, Minas Gerais. O paciente não havia recebido a vacina contra a febre amarela e apresentou os sintomas da doença após retornar de uma área rural.  O mesmo agravou e, aconselhado pelo médico responsável, foi levado às pressas pela família para receber o medicamento na Fiocruz/RJ. O paciente apresentou melhora do quadro clínico e dos exames laboratoriais logo após receber as duas primeiras doses do medicamento por via oral. Vamos aguardar o posicionamento do Ministério da Saúde e da ANVISA com relação ao medicamento e esperar que o mesmo seja disponibilizado pelo SUS para tratamento dos pacientes com febre amarela no Brasil. Enquanto isso, não deixe de se vacinar! A vacinação é nossa melhor arma contra a febre amarela!

Se quiser saber mais sobre esta doença, leia um outro post nosso  intitulado Febre amarela: o que você precisa saber. É só clicar aí!

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Nosso abraço carinhoso!

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Autora: Professora Lucia Cangussu

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Meu nome é Lucia Regina Cangussu da Silva, mineira quase baiana, bióloga, amante da vida, da família, dos amigos, da natureza e da ciência. Sempre adorei estudar e ensinar. Faço isso desde que me entendo por gente! Faço parte do grande grupo dos “nerds”! Já na graduação na UFMG me apaixonei pelo mundo microbiano logo na primeira aula com as Professoras Betinha e Patrícia. Foi realmente um amor à primeira vista e fico sempre me perguntando o motivo, já que os microrganismos nem sempre são tão bons, bonitos e gostosos como se esperaria! Talvez seja porque, como a maioria dos microrganismos, posso quase ser medida em micrômetros. Este mundo invisível sempre me fascinou e não canso de estudá-lo. Tornei-me o que o meu caro professor Humberto Carvalho condenava... estudante profissional! Lamento, Mestre!