Revisões > Microbiologia e Saúde

bromelia_aedes2

Bromélias são focos para a proliferação do mosquito Aedes no Brasil? Uma breve revisão sobre o tema.

Introdução

A preocupação com a possibilidade de bromélias servirem como criadouros de mosquitos do gênero Aedes (Aedes aegypti e Aedes albopictus) aumentaram com a elevação do número de casos de Dengue, Zika e Chikungunya no Brasil e com a comprovação do envolvimento do vírus da Zika com a microcefalia e a Síndrome de Guillain-Barré.  A única forma de resolvermos o dilema é nos apoiarmos em dados científicos nacionais e descobrirmos o que a ciência tem a nos dizer sobre o tema.

Acreditamos que a ocorrência de larvas do “mosquito da dengue” em bromélias precisa ser avaliada de forma retrospectiva já que os mosquitos do gênero Aedes foram introduzidos no Brasil há algumas décadas. Nosso objetivo, nesta breve revisão, foi levantar e divulgar os resultados dos estudos feitos por pesquisadores brasileiros sobre a presença de larvas de Aedes aegypti e de Aedes albopictus em bromélias em ambientes naturais ou domesticadas e avaliar o real significado epidemiológico dos achados em termos de saúde pública.

É de se esperar que as pessoas que possuem estas lindas plantas tropicais em seus jardins ou no interior de suas residências estejam preocupadas que as mesmas possam constituir focos de proliferação destes mosquitos e que os mesmos venham a transmitir os vírus da dengue, da Zika ou da chikungunya em suas residências ou para os que moram em sua proximidade. Outros estão dispostos a exterminá-las para evitar a presença do Aedes, tamanho o receio que têm destas viroses e das sequelas que podem gerar. São para os que amam e para os que temem as bromélias que dedico esta revisão!

As plantas da família Bromeliaceae, vulgarmente denominadas de bromélias, são muito empregadas no Brasil em projetos paisagístico e na decoração de interiores pela exuberância de suas folhas e de suas inflorescências. Estas plantas se distribuem quase que exclusivamente na América tropical. A família Bromeliaceae apresenta mais de 50 gêneros e mais de 3.000 espécies, sendo que 36% delas são encontradas no Brasil, especialmente na floresta Atlântica (MOREIRA, WANDERLEY e BARROS, 2006). Uma espécie de bromélia muito comercializada e apreciada pela população mundial é o abacaxi cuja inflorescência apresenta sabor agridoce característico, sendo muito utilizado em sucos e em inúmeras receitas da gastronomia tropical.

As bromélias podem ser epífitas (crescem em troncos de árvores), rupícolas (crescem em rochas e paredões rochosos) ou terrestres. As raízes das bromélias apresentam a função de fixação da planta ao solo, em rochas, galhos de árvores ou suportes artificiais feitos pelo homem, não apresentando a função típica do sistema radicular de outros tipos de plantas. A água e os nutrientes são obtidos a partir de seu tanque, conhecido pela população como o “copo da bromélia”, formado pela união da base de suas folhas achatadas (imbricamento). As folhas podem apresentar diferentes colorações, bordas lisas ou com espinhos (epinescentes), sendo esta uma característica importante para sua classificação (MOREIRA, WANDERLEY e BARROS, 2006, MARTINELLI et al., 2008). No tanque ficam retidos a água, compostos orgânicos, compostos inorgânicos, folhas e animais mortos provenientes do ambiente. Este ambiente rico em umidade e em nutrientes pode se transformar em um nicho ideal para vários animais vertebrados ou invertebrados e para microrganismos variados (VAREJÃO et al., 2005).

O tanque das bromélias tende a se tornar mais anaeróbio com o acúmulo de água e o consequente aumento de sua profundidade (<1 ppm de O2), pois o oxigênio não se dissolve bem em meio líquido. Esta condição favorece a proliferação de microrganismos acetogênicos (produtores de ácido acético) que tornam o conteúdo do tanque ácido (pH 3,5 a 6,5) e inadequado para a proliferação de vários microrganismos  que não toleram a acidez. Microrganismos procariontes classificados como Archaea estão presentes no tanque das bromélias e produzem o gás metano a partir do carbono da matéria orgânica ali depositada. O metano é um gás tóxico e inflamável, sendo produzido quando a disponibilidade de água se eleva e as condições anaeróbias se estabelecem (GOFFREDI et al., 2011; BRANDT et al., 2015).

O Aedes aegypti e o Aedes albopictus em bromélias no Brasil.

A ocorrência de Aedes aegypti em bromélias foi inicialmente descrita por Peryassú em 1908, citado por Gonçalves e Messias (2008), no município do Rio de Janeiro. Na década de 80 o Aedes albopictus foi encontrado em uma bromélia no Espírito Santo (NETO, LIMA e ARAGÃO, 1987). Esses foram achados esporádicos que não revelavam absolutamente nada sobre o papel das bromélias como criadouros de mosquitos, transmissores ou não de doenças ao homem.

Aedes albopictus Aedes aegypti 9b5b1

Na década de 90, com a epidemia de dengue no país, os estudos se intensificaram. Foram  publicados trabalhos que relataram a presença de formas imaturas (larvas e/ou pupas) de mosquitos da família Culicidae, à qual pertencem os mosquitos do gênero Aedes, em bromélias no Brasil. Sabe-se que os mosquitos do gênero Aedes podem transmitir mais de 24 viroses ao homem, sendo que no Brasil são atualmente os transmissores dos vírus da dengue, do vírus da Zika e do vírus da chikungunya.

Em 1997, larvas de Aedes albopictus foram encontradas nos meses de dezembro a junho em 1 (uma) bromélia que foi monitorada por NATAL et al. (1997), no Parque Ecológico do Tietê, na periferia de São Paulo e estas se desenvolveram tanto em mosquitos machos quanto fêmeas. Os autores, já nesta época, alertavam para o risco desta planta, comum no ecossistema da Serra do Mar, se tornar um reservatório deste mosquito em nosso território.

Um levantamento conduzido em Santa Catarina por um período de quase dez anos (1998 a 2007) mostrou que 96% dos criadouros de Aedes aegypti e 90,75% dos criadouros de Aedes albopictus eram criadouros artificiais como pneus, garrafas e outros recipientes com água e não criadouros naturais como axilas de folhas, bromélias, buracos de árvores, rochas, restos de animais, cascas e carapaças. O Aedes albopictus apresentou maior capacidade de colonização dos criadouros naturais, contudo neste levantamento não ficou claro qual foi a importância relativa das bromélias como reservatório deste mosquito (ROSSI e SILVA, 2009). Estes autores alertaram que a domesticação de espécies da família Bromeliaceae para fins decorativos poderia favorecer a presença do Aedes albopictus e de Aedes aegypti nos ambientes urbanos brasileiros.

Forattini e Marques (2000) relataram o encontro de 3 (três) formas imaturas de Aedes aegypti em 1 (uma) bromélia de uma residência no município de Potim (SP). Esta residência apresentava também as larvas do mosquito em pratos de plantas e na caixa d´água. Os autores avaliavam que a domesticação das bromélias poderia vir a se tornar um risco para a saúde pública, assim como ocorreu com a domesticação de animais como cães e gatos que podem transmitir várias doenças aos humanos. Neste estudo, as bromélias representaram apenas 0,8% dos criadouros do Aedes no município, sendo o restante atribuível aos criadouros artificiais gerados pela própria população e deixados expostos no meio ambiente.

As bromélias abrigam uma grande diversidade e um elevado número de formas imaturas de culicídeos (referidos pela população como pernilongos), sendo realmente um ambiente propício para o desenvolvimento destes mosquitos. Vários estudos foram conduzidos para se determinar quais gêneros de culicídeos eram encontrados nestas plantas e se entre eles poderiam estar os famosos “mosquitos da dengue”.

Em bromélias de Ilhabela e de Ilha comprida (SP), localizadas tanto no ambiente urbano quanto periurbano, Marques, Santos e Forattini (2001) encontraram larvas de mosquitos dos gêneros Culex, Wyeomyia, Anopheles, Toxorhynchites, Limatus e Runchomyia. Foram coletadas 26.647 formas imaturas de culicídeos em dois anos, não havendo diferença significativa no número encontrado em ambiente urbano e periurbano. As formas imaturas de Aedes albopicitus foram encontradas em bromélias em número mais elevado nos meses do verão tanto no ambiente urbano como periurbano, sendo a sétima espécie de culicídeo mais frequente em bromélias do ambiente urbano em Ilhabela. Este estudo mostrou que o tamanho das bromélias, a quantidade de água armazenada e a periodicidade das regas pode favorecer a presença do Aedes albopictus no ambiente domiciliar, mas que é provável que a mesma vá se adaptando a reservatórios de menor volume, até mesmo no ambiente de matas tropicais, com o tempo. Estes autores concluíram na época que as bromélias constituíam criadouros não negligenciáveis deste mosquito.

A ocorrência de Aedes aegypti em várias plantas, inclusive bromélias, foi investigada por Cunha et al. (2002) na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Estes pesquisadores verificaram que as bromélias constituíam apenas 0,02% a 2,03% do total de depósitos com Aedes no município. Dos 23.299 criadouros encontrados em plantas (pratos de plantas, jarros com plantas, etc), apenas 467  (2%) foram encontrados em bromélias na área urbana do município. Conclui-se, assim, que o hábito de usar pratos debaixo de vasos de plantas e a manutenção de plantas em água nas residências é muito mais significativo para a manutenção do Aedes aegypti do que as bromélias. Somos a favor da proibição da fabricação e comercialização destes pratos, pois esta medida simples eliminaria um dos reservatório sabidamente significativos para o desenvolvimento do  Aedes nas residências brasileiras. Ao invés disso, muitos fazem campanhas para eliminar as bromélias dos jardins, inclusive autoridades direta ou indiretamente ligadas ao combate ao mosquito. Será que esta é uma atitude correta? Continuemos com nosso estudo.

O estado do Paraná foi o primeiro a relatar a presença de Aedes em bambus, pois forma-se um copo quando o bambu é cortado rente ao solo. Durante uma pesquisa em bambus, Silva, Nunes e Lopes ( 2004), pesquisaram 65 bromélias, fixadas ao solo ou em troncos até dois metros de altura, no município de Imbucuí-Mirim (PR). Formas imaturas de mosquitos foram encontradas em 41 amostras, sendo 20 larvas de Culex (Microculex) spp. (48,8%), 20 de Wyeomyia spp. (48,8%) e 1 de Toxorhynchites sp. (2,4%). O Aedes albopicitus não foi encontrado em nenhuma destas bromélias, mas foi encontrado em reservatórios de bambu quando estes apresentavam de 30 a 254 ml de água armazenada. Fica aí um alerta importante, apesar do bambu não ser o nosso foco no momento.

Um estudo detalhado das bromélias de solo de Ilhabela (SP) foi conduzido por Marques e Forattini em 2005 para avaliar o efeito do ambiente, do tamanho da bromélia e do volume armazenado de água sobre a presença de formas imaturas de Aedes albopictus nestas plantas. A positividade média foi de 12,2% em ambiente urbano, 3,9% no ambiente periurbano e 0,9% na mata. Esse é um dado importante para evitar que as bromélias sejam banidas dos projetos paisagísticos pelo fato de certos indivíduos acreditarem, sem dados científicos, que toda bromélia plantada em um jardim é um foco de proliferação de mosquitos do gênero Aedes.

Em um estudo muito semelhante conduzido por estes mesmos autores, as bromélias confirmaram-se como ambientes complexos e favoráveis à proliferação de culicídeos, principalmente os do gênero Culex. As formas imaturas do mosquito Aedes albopicitus representaram apenas 5,2%, 1,3% e 0,6% do total de larvas ou pupas encontradas em bromélias do ambiente urbano, periurbano e de mata, respectivamente. Este achado confirma que as bromélias não constituem criadouros significativos deste mosquito (MARQUES e FORATTINI, 2008).

As bromélias ocorrem como parte da vegetação nativa em paredões rochosos em vários bairros da cidade de Vitória (ES). (VAREJÃO et al., 2005) encontraram 120 formas imaturas de culicídeos em bromélias de cinco áreas investigadas, havendo predominância do gênero Culex como detectado em São Paulo. Deste total, 20 imaturos eram de Aedes aegypti e foram encontrados em bromélias da espécie Alcantarea extensa, uma bromélia de porte robusto com capacidade de armazenamento de um volume considerável de água, em duas das áreas estudadas. O índice de infestação predial dos bairros no entorno não correlacionou com os achados das larvas e pupas de Aedes aegypti nas bromélias.

Alcantarea extensa 291c8

Foto de um exemplar de Alcantarea extensa mostrando o porte robusto da planta. Fonte: http://www.bromeliad.org.au

Um fato muito interessante relatado no estudo acima foi a presença, em duas áreas, de duas caixas com 500L de água cada, repletas de larvas de Aedes aegypti, a menos de 30m de distância de rochas onde se encontravam bromélias que não apresentavam larvas desse mosquito. Os autores estimaram que a densidade de larvas de Aedes aegypti nas duas caixas era de 75 a 120 larvas/litro de água, respectivamente. Este estudo comprova a preferência do Aedes aegypti por reservatórios artificiais, onde as larvas ficam livres da ação de predadores que se alimentam de suas larvas no tanque das bromélias.

Apesar da probabilidade de encontro de larvas ou pupas de Aedes em bromélias ser baixa, quantas larvas podem ser encontradas em uma dada bromélia? Esta é uma pergunta intrigante e que nos permite ter uma ideia de quantos mosquitos uma bromélia seria capaz de maturar em seu tanque. No estudo de Marques e Forattini (2005) mencionado acima, foram encontrados em média 3,82 imaturos de Aedes albopicitus por bromélia em área urbana, 2,23 em área periurbana e 2,28 em bromélias na mata. O volume de água destas bromélias que apresentaram larvas ou pupas de Aedes albopictus variou de acordo com o ambiente estudado, sendo de 80 a 5.000 ml em área urbana; de 40 a 570 ml no ambiente periurbano e de 30 a 480 ml na mata. No ambiente urbano, as bromélias maiores que armazenam maiores volumes de água são as que tendem a se tornar criadouros deste mosquito, porém mesmo nestas plantas seriam gerados menos de 4 (quatro) mosquitos do gênero Aedes por bromélia evidenciando sua baixa eficácia como criadouro de mosquitos transmissores de doenças ao homem. Este dado pode ser comparado aos das caixas d´água de 500L encontradas em Vitória (ES) por Varejão et al. (2005) que calcularam que as mesmas apresentavam  75 a 120 larvas/litro de água, respectivamente. Isto corresponderia a uma geração de 37.500 a 60.000 mosquitos adultos de Aedes aegypti, se todas as larvas se desenvolvessem. Esta é uma prova inquestionável da pouca relevância de bromélias como criadouros destes mosquitos. Vamos buscar mais evidências…

Mocellin et al. (2009) encontraram, ao longo de um ano, 2.816 formas imaturas de culicídeos em 120 bromélias do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, uma média de 5,87 culicídeos por bromélia, dos quais apenas 7 (sete) eram do gênero Aedes. Quando comparamos os dados destes dois últimos estudos com as imagens que vimos todos os dias de frascos com amostras de água coletada em caixas d´água e em tambores deixados destampados em áreas endêmicas percebemos que as bromélias certamente não são as vilãs dessa epidemia.

Encontramos dois estudos nos quais a frequência de larvas de Aedes em bromélias foi mais elevada. No município de Maringá (PR), seis de quatorze bromélias amostradas (42,86%) apresentaram larvas do mosquito Aedes, sendo que 94,2% das formas imaturas encontradas eram do mosquito Aedes aegypti e 5,8% de Aedes albopictus (SILVA e GOMES, 2008). Segundo estes autores a cidade de Santa Helena, localizada no oeste do Paraná, vivenciou um surto de dengue devido ao uso de bromélias na ornamentação de vias públicas, mas os mesmos não especificam como descartaram os demais criadouros no levantamento epidemiológico do referido surto.

O segundo estudo foi conduzido no Campus da Fundação Osvaldo Cruz (FIOCRUZ) onde 75 exemplares de bromélias foram amostrados para a pesquisa de imaturos de Aedes no período de 2000 a 2001 (GONÇALVES e MESSIAS, 2008). Foram relatadas 428 formas imaturas de Aedes aegypti nas bromélias Alcantarea imperialis, Neoregelia cf. coriácea, Neoregelia “hibrida”, Vriesea sp., Neoregelia cruenta, Neoregelia compacta, Quesnelia sp., Billbergia pyramidalis e em três exemplares não identificados. A espécie de bromélia com o maior número de imaturos (269) foi a Alcantarea imperialis, uma bromélia grande com capacidade de armazenamento de um volume considerável de água. É importante salientar que a sede da Fiocruz na cidade do Rio de Janeiro encontra-se em área urbana, com grande trânsito de pessoas, rodeada por bairros de periferia com densidade elevada de habitantes e que o município do Rio de Janeiro enfrentava uma epidemia de dengue com cerca de 50.000 casos notificados. É possível que em situações de elevada proliferação e dispersão de mosquitos do gênero Aedes, bromélias sob ação antrópica (do homem) possam exigir uma atenção e cuidados especiais, como todos os demais reservatórios de água dos ambientes urbanos.

Alcantarea Noreoregelia Vriesea Billbergia 958f7

Foto de exemplares de Alcantarea imperialis , Noreoregelia compacta, Vriesea fenestralis e Billbergia pyramidalis.

Um dos estudos mais recentes sobre o tema foi conduzido no Jardim Botânico do Rio de Janeiro que possui uma vasta coleção de bromélias. Em um estudo com 120 destes exemplares que se encontravam próximos às residências de uma área contígua endêmica para dengue, Mocellin et al. (2009) encontraram, ao longo de um ano, 2.816 formas imaturas de culicídeos, uma média de 5,87 culicídeos por bromélia. Os gêneros predominantes foram mais uma vez Culex e Wyeomyia, mas tanto a quantidade quanto a diversidade de culicídeos variaram para diferentes espécies de bromélia, aumentando progressivamente de acordo com o aumento do número de folhas da bromélia e com o volume de água armazenada. Apenas duas larvas (0,07%) eram de Aedes aegypti e cinco (0,18%) de Aedes albopictus. As larvas foram encontradas nas bromélias das espécies Alcantarea imperialis, Neoregelia compacta, Neoregelia johannis e Quesnelia quesneliana que estão entre as maiores bromélias tropicais.

Conclusões

Os dados científicos apresentados acima nos permitem concluir que:

  1. O tanque das bromélias favorece a proliferação de mosquitos culicídeos, principalmente os dos gêneros Culex e Wyeomyia.
  2. Formas imaturas de mosquitos Aedes podem ser encontradas em uma porcentagem pequena de bromélias presentes em ambientes naturais, periurbanos e urbanos.
  3. O número de larvas de mosquitos do gênero Aedes encontradas em uma dada  bromélia é muito pequeno.
  4. As bromélias não são focos significativos de produção de mosquitos do gênero Aedes e não devem ser incluídas como alvo das estratégias de combate à dengue (e agora da Zika e da Chikungunya).

Algumas perguntas sobre as bromélias e os “mosquitos da dengue” ainda persistem e precisam ser elucidadas…

Quais são as características das bromélias que favorecem a presença de larvas de mosquitos culicídeos de espécies variadas, inclusive as dos “mosquitos da dengue”?

  1. A existência do tanque ou copo formado pelo imbricamento de suas folhas planas e largas.
  2. Chuvas periódicas e regas que mantêm ou elevam o nível de água presente no copo.
  3. A presença de matéria orgânica proveniente da degradação de folhas, insetos e animais.
  4. A fácil adaptação destas plantas a ambientes tropicais de naturais, periurbanos e urbanos.

Quais são as medidas eficazes de proteção das bromélias contra a deposição de ovos e o desenvolvimento de larvas de mosquitos, inclusive do gênero Aedes? É óbvio que a atitude ecologicamente correta é deixá-las intocadas.

  1. Preencher o volume do copo das bromélias com palha, casca de árvore ou fitas de madeira (dessas que são usadas para a proteção de produtos encaixotados para transporte) evitando que a água se acumule e que as larvas de culicídeos se desenvolvam inclusive do mosquito Aedes (SILVA e GOMES, 2008). Como muitos fungos são celulolíticos e se alimentam da celulose, temo pela saúde das bromélias.
  2. A mais fácil de ser executada em nossa opinião é a lavagem periódica dos tanques das bromélias domesticadas para que as formas imaturas (larvas e pupas) sejam lavadas do interior do copo diminuindo a geração de mosquitos adultos alados, principalmente os que transmitem doenças ao homem como os do gênero Aedes como proposto por Marques e Forattini (2008). Adicionalmente, gostaríamos de sugerir que se assegure que a água da drenagem não seja direcionada para ralos da rede de esgoto e sim para o solo ou areia onde as formas imaturas morrerão por desidratação.

Quais são as propostas de controle que devem ser sempre evitadas?

  1. A aplicação de inseticidas ou larvicidas no tanque: são produtos tóxicos e que podem selecionar mosquitos resistentes agravando a situação epidemiológica das doenças veiculadas pelos mesmos a médio e em longo prazo.
  2. Remoção das bromélias dos projetos paisagísticos: são plantas tropicais exuberantes que conferem grande beleza e harmonia aos nossos jardins.

Gostaríamos de terminar este texto com o depoimento que nos foi enviado pela Profa Dra Ana Paula Gelli de Faria, pesquisadora de plantas da família Bromeliaceae, do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Juiz de Fora:

“Em tempos de epidemia, torna-se necessária a propagação de informação correta e bem fundamentada para a população. Muito se diz a respeito das bromélias serem focos preferenciais do mosquito da dengue. Algumas espécies de bromélias são capazes de acumular água e matéria orgânica nos “tanques” formados pela sobreposição de suas folhas, os quais servem como reservatório de nutrientes para a planta. No entanto, em seu ambiente natural, os tanques das bromélias não são locais propícios para o desenvolvimento das larvas e das pupas do Aedes aegypti. O estabelecimento das larvas e das formas mais jovens do mosquito da dengue nos tanques das bromélias parece não ser tão simples, uma vez que elas precisam competir com insetos mais adaptados àquele ambiente. Além disso, a água rica em matéria orgânica em decomposição não é um ambiente propício para que o mosquito da dengue coloque seus ovos. O uso de inseticidas nas plantas, assim como outras formas de destruição indiscriminada das bromélias não se justifica como forma de prevenção à dengue. Os esforços devem ser voltados para os focos principais (ex. caixas d´água destampadas, tonéis, piscinas e outros reservatórios de água parada) onde ocorre o acúmulo de água limpa. Para bromélias localizadas em ambientes exclusivamente urbanos (ex. interior de apartamentos, jardins de praças, condomínios e outros estabelecimentos), sugere-se dissolver uma colher de sopa de água sanitária (hipoclorito de sódio) em um litro de água e colocar esta solução no tanque das plantas semanalmente. Isso não prejudica as bromélias e elimina a criação de mosquitos, matando também as larvas já existentes nas plantas”.

Cultive sempre seu amor pelas bromélias! Proteja nossa biodiversidade!

Se você considerou esta postagem esclarecedora, solicitamos que a compartilhe com aqueles que amam e com aqueles que temem que as bromélias sejam focos de proliferação dos mosquitos que transmitem a Dengue, a Zika e a Chikungunya.

COMPARTILHAR

 

Autora: Professora Lucia Cangussu

prof

Meu nome é Lucia Regina Cangussu da Silva, mineira quase baiana, bióloga, amante da vida, da família, dos amigos, da natureza e da ciência. Sempre adorei estudar e ensinar. Faço isso desde que me entendo por gente! Faço parte do grande grupo dos “nerds”! Já na graduação na UFMG me apaixonei pelo mundo microbiano logo na primeira aula com as Professoras Betinha e Patrícia. Foi realmente um amor à primeira vista e fico sempre me perguntando o motivo, já que os microrganismos nem sempre são tão bons, bonitos e gostosos como se esperaria! Talvez seja porque, como a maioria dos microrganismos, posso quase ser medida em micrômetros. Este mundo invisível sempre me fascinou e não canso de estudá-lo. Tornei-me o que o meu caro professor Humberto Carvalho condenava... estudante profissional! Lamento, Mestre!