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Entenda o que é R0 na Covid-19 e suas consequências.

Um parâmetro importante em uma nova doença infecciosa como a causada pelo vírus SARS-CoV-2 da Covid-19 é o R0 (R zero) ou número básico de reprodução. O R0 mede a transmissibilidade do agente infeccioso. O R0 nos diz o número de indivíduos que serão contaminados a partir de um indivíduo infectado que servirá como fonte do agente infeccioso. O R0 é calculado quando se tem uma população não vacinada, sem contato prévio com o patógeno e quando não há formas de controlar sua dispersão. O “novo coronavírus” SARS-CoV-2 se encaixa perfeitamente nestes pré-requisitos.

Para que possamos entender melhor a relação entre o valor do R0 e as consequências em termos de doenças infecto-contagiosas, veja as diferentes possibilidades abaixo:

1- Se o R0 for menor que 1: isto significa que cada indivíduo infectado gerará menos que um outro indivíduo infectado. A chance de transmissão é muito baixa e a doença tenderá a decair e a desaparecer.

2- Se o R0 for igual a 1: neste caso, cada indivíduo infectado causa uma nova infecção e a doença permanecerá, pois será transmitida de indivíduo em indivíduo, de forma estável, sem que ocorra uma epidemia. A doença pode permanecer na mesma região ou população por longos períodos de tempo.

3- Se o R0 for maior que 1: aqui a situação fica mais preocupante porque cada indivíduo infectado causa mais que uma nova infecção, isto é, infecta mais que um indivíduo. Nestes casos, ocorrerá um surto, uma epidemia ou uma pandemia. Quanto mais elevado o valor do R0, maior será a transmissibilidade e maior será a população potencialmente afetada pelo agente infeccioso.

Alguns fatores influenciam o R0 de uma doença infecciosa:

1- O período de transmissibilidade: quanto mais longo este período, maior é a probabilidade de um indivíduo infectado transmitir a doença para outro indivíduo não-infectado.  No caso da Covid-19, o período de transmissibilidade do vírus SARS-CoV-2 está estimado entre 12 a 20 dias, sendo mais prolongado em idosos e em pessoas que tiveram os quadros mais graves da doença. Portanto, o isolamento destes pacientes é muito importante e eles deverão ficar em quarentena até que parem de eliminar o vírus na forma infecciosa nas fezes e em suas secreções respiratórias quando falam, espirram, tossem. Outro fator a ser considerado no afastamento físico é que o indivíduo infectado pode fazer a liberação do vírus SARS-CoV-2 uns 2 dias antes de apresentar qualquer sintoma da doença. Para piorar um pouco mais a situação, vários indivíduos são assintomáticos produzindo e liberando vírus sem nem perceber. Este fato é muito preocupante e, certamente, dificultará a contenção da transmissão.

2- A taxa de contato: se o indivíduo infectado tiver contato com muitas pessoas susceptíveis à doença, ele espalhará o agente infeccioso para muitas delas. Portanto, uma taxa de contato alta resultará em uma elevação do R0. O isolamento físico na Covid-19 entra atuando aqui para fazer a alteração do R0: menos contatos, menos transmissão!

3- A forma de transmissão: se a transmissão é pelo ar (na forma de gotículas ou aerossóis) nem mesmo o contato físico direto com  o infectado ou com os objetos contaminados por ele se fazem necessários para que a transmissão ocorra. A transmissão é ainda mais fácil e o R0 fica ainda mais alto. Vem daí a recomendação do distanciamento de 1 a 2 metros entre as pessoas no combate à pandemia da Covid-19. Um fator adicional no caso do vírus SARS-CoV-2 é sua resistência ambiental bem acima do esperado para este tipo de partícula viral que é envolta em lipídeos. O vírus permanece infeccioso por 30 minutos em papel, 1 dia em madeira e tecido, até dois dias em vidro e dinheiro, 4 dias em inox e plásticos e até 7 dias máscaras. Remover as partículas do vírus SARS-CoV-2 através da lavagem ou destruir suas partículas com o uso do sabão, hipoclorito ou álcool, por exemplo, se tornou uma etapa imprescindível em nossas rotinas.

A OMS estimou que o R0 do novo coronavírus SARS-CoV-2 está entre 1,4 e 2,5, mas esta é considerada uma estimativa muito conservadora. Outros autores já defenderam valores próximos de 7,0. Não é o R0 mais elevado de que se tem notícia, mas já deu para todos nós entendermos o que um R0 acima de 1,0 pode fazer com a humanidade, não é mesmo?

Só para efeito de comparação, o R0 do sarampo é 20. Felizmente, desenvolvemos há algumas décadas a vacina contra o sarampo e podemos nos proteger desta virose. A vacina protetora contra o SARS-CoV-2 está longe de chegar, portanto, cuide-se bem!

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Saúde para você e para todos que têm um lugar especial em seu coração!

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Autora: Professora Lucia Cangussu

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Meu nome é Lucia Regina Cangussu da Silva, mineira quase baiana, bióloga, amante da vida, da família, dos amigos, da natureza e da ciência. Sempre adorei estudar e ensinar. Faço isso desde que me entendo por gente! Faço parte do grande grupo dos “nerds”! Já na graduação na UFMG me apaixonei pelo mundo microbiano logo na primeira aula com as Professoras Betinha e Patrícia. Foi realmente um amor à primeira vista e fico sempre me perguntando o motivo, já que os microrganismos nem sempre são tão bons, bonitos e gostosos como se esperaria! Talvez seja porque, como a maioria dos microrganismos, posso quase ser medida em micrômetros. Este mundo invisível sempre me fascinou e não canso de estudá-lo. Tornei-me o que o meu caro professor Humberto Carvalho condenava... estudante profissional! Lamento, Mestre!