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Reuso da água pode afetar sua saúde?

O reuso da água é um processo natural! Apesar de toda a divulgação recente pela mídia, como consequência da escassez de água em várias regiões do país, este tema não é nada novo!

As moléculas de água viajam constantemente por este planeta. As moléculas de água que agora se encontram formando a água sob a forma líquida encontrada em rios, lagos e mares se deslocam sobre a superfície terrestre, penetram nas camadas profundas do solo ou sofrem evaporação formado as nuvens. Estas, por sua vez, se deslocam na atmosfera carregando as moléculas de água que eram nossas para lugares distantes. Estas moléculas retornarão para a superfície do planeta sob a forma líquida, só que em algum lugar distante daqui. Você estava achando que só você é quem gosta de viajar?
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Encontramos nos polos e em altitude a água sob o estado sólido. Mesmo com toda a aparência de imobilidade, estes grandes blocos de água se deslocam sobre a superfície do planeta cavando cânions ou degela em períodos mais quentes, voltando para a forma líquida, mais uma vez.

Esta dança constante e esta viagem interminável das moléculas de água fazem com que as mesmas estejam hoje no corpo dos seres vivos, amanhã no solo, depois no ar ou em algum outro lugar, mas sempre deslocando por aí.

A opinião de um expert em reuso da água

Então, você pode se perguntar, porque me preocupar? A água um dia retornará e reciclará. O Professor Ivanildo Hespanhol, do CIRRA/ USP em São Paulo, em seu artigo intitulado “Potencial de Reuso de Água no Brasil: Agricultura, Indústria, Municípios, Recarga de Aquíferos” de 2002 já afirmava que “[…] a água se tornou um fator limitante para o desenvolvimento urbano, industrial e agrícola. Mesmo áreas com recursos hídricos abundantes, mas insuficientes para atender às demandas elevadas, experimentam conflitos de uso e sofrem restrições de consumo que afetam o desenvolvimento econômico e a qualidade de vida […]. Nessas condições, reuso e conservação passaram a ser as palavras chaves em termos de gestão, em regiões com baixa disponibilidade ou insuficiência de recursos hídricos”.

Nesse eterno vai e vem, a água vai adquirindo características peculiares em cada ambiente, interagindo com os seres vivos, com os compostos presentes no solo, com os restos de vegetais, com os dejetos de animais, inclusive os do homem, com os contaminantes químicos de efluentes industriais e com microrganismos variados. O que podemos concluir disso tudo é que nem aquela água cristalina presente na natureza pode ser considerada pura em termos químicos e microbiológicos.

O tratamento da água para consumo humano

O homem descobriu muito cedo que água límpida e sem cheiro não era sinônimo de água segura e que era necessário purificar a água para consumo humano, tanto que os primeiros processos de clarificação da água foram desenvolvidos cerca de 2.000 a.C.

As descobertas da microbiologia feitas por Louis Pasteur e por Robert Koch a partir de 1860 culminaram na capacidade de detecção de agentes patogênicos que causavam doenças em animais e no homem. Estas descobertas abriram o caminho para a comprovação de que a água era um importante veículo de microrganismos causadores de doenças infecciosas. Um marco histórico foi a comprovação de que a epidemia de cólera que afetava o povo inglês era causada por água contaminada como a bactéria Vibrio cholerae.

Ficou evidente que era preciso desenvolver processos para a desinfecção da água de consumo como forma de se evitar este tipo de epidemia. Os dois pesquisadores acima desenvolveram filtros para filtração da água e comprovaram que a fervura matava os microrganismos patogênicos presentes na mesma.

Com o crescimento da população urbana, tornou-se imprescindível a captação dos esgotos e o tratamento da água por produtos clorados. Estes produtos permitiram que grandes volumes de água fossem desinfetados evitando a disseminação das doenças de veiculação hídrica (DVH). Vivemos desta maneira há décadas, captando e tratando a água para torná-la potável para todos os usos humanos.

A escassez de recursos hídricos

Nos deparamos, na atualidade, com a impossibilidade de ter acesso à quantidade necessária de água para que as estações de tratamento possam suprir nossas demandas. Esta situação vem ocorrendo em centros urbanos e em regiões rurais que passam por períodos prolongados de secas. Nos grandes centros urbanos, milhões de litros de água são utilizados todos os dias.

O que nos resta fazer? Mudar o nosso olhar e procurar a água onde quer que ela esteja viajando!

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Após seu uso, a água vai parar na rede de esgotos. Já que água é sempre H2O, porque não pegá-la de volta como a natureza tão bem nos ensina? Esta é a base do reuso da água! Devemos captar e tratar os esgotos urbanos e a água das chuvas para que possamos recuperar as tão preciosas moléculas de H2O que se encontram misturadas com toda aquela matéria orgânica, com compostos químicos indesejáveis e com microrganismos patogênicos. O objetivo é tornar a água segura para uso humano, seja na forma potável ou não-potável.

Reuso não intencional

Muita gente, inclusive você, deve dizer hoje que não tem coragem de beber “água de esgoto”. Contudo, quem pode lhe garantir que a água que chegou hoje em sua casa nunca esteve misturada ao esgoto, a dejetos ou a contaminantes químicos ou biológicos? Sempre fizemos o reuso não-intencional da água! Quem lhe disse que a água que você consome é nova? Lembre-se que ela está circulando neste planeta há milhares de anos. Já passou por cada lugar que é melhor você nem pensar nisso.

Quando a água chega a um dado manancial, ela provavelmente já recebeu esgoto de alguma propriedade rural, de alguma residência ou pelo menos as excretas de algum animal ou restos de sua carcaça, não acha? Nojento, eu sei disso. E isto, não é reuso? Lógico que é, mesmo que não se denomine assim.

Acredito que você nunca tenha se preocupado com isso, certo? E sabe por quê? A resposta se resume na palavra CONFIANÇA! Você intimamente acredita que a empresa que cuida da água do seu município possui métodos e programas de controle de qualidade adequados para lhe fornecer água segura. Entretanto, quando a fonte de moléculas de água é menos convencional como, por exemplo, o esgoto… porque você não confiaria?

A resposta desta vez está na palavra CONHECIMENTO. A maioria das pessoas desconhece os métodos disponíveis para o tratamento de esgotos e por isso acredita que a água proveniente do esgoto conterá as mesmas substâncias, o mesmo odor e os mesmos perigos associados ao esgoto doméstico. Quebrar este preconceito é função de todos aqueles investidos nos processos de tratamento e nas instituições de ensino de qualquer natureza.

 O tratamento de esgotos urbanos e industriais

Dispomos de métodos convencionais e de métodos avançados para o tratamento de esgotos. Na estação de tratamento de esgoto (ETE), o afluente que entra na estação (esgoto urbano ou industrial) passa inicialmente por grades para a remoção de material particulado como papel higiênico, fios de cabelo, plásticos e outros objetos inesperados, como fraldas descartáveis e absorventes íntimos, que não deveriam ter sido descartados na rede de esgotamento sanitário.

Quando se pensa em reuso da água esta é a primeira contribuição que todos nós podemos dar para redução dos custos do tratamento do esgoto: não jogar sólidos no vaso sanitário ou em qualquer lugar onde possa acabar atingindo a rede de esgotamento sanitário.

Na etapa secundária do tratamento, busca-se reduzir a matéria orgânica explorando a capacidade metabólica dos próprios microrganismos presentes no esgoto. Para tanto, são fornecidas condições adequadas de aeração, temperatura e pH para que os microrganismos possam degradar a matéria orgânica. Como resultado estimula-se a produção de ATP, de novas células microbianas e de novos compostos orgânicos.

Nesta segunda etapa, após a atividade microbiana e uma etapa de sedimentação, pode-se chegar a uma redução de 80% da matéria orgânica do esgoto. O efluente obtido na forma líquida vai para a etapa terciária de tratamento que deverá eliminar 99% das impurezas e gerar água. Viva! As valiosas e amadas moléculas de H2O estão aí de volta!

Reuso potável direto e indireto

Esta água que sai da estação de tratamento de esgotos pode ser direcionada para a reposição dos níveis dos mananciais. Neste caso, estaremos fazendo o que se denomina de reuso potável indireto da água, pois a mesma passará por novo processo de captação e tratamento em uma estação de tratamento de água (ETA) antes de chegar às nossas residências. Existe menor resistência da população ao reuso potável indireto, porque já é fato conhecido de todos nós que a água captada é contaminada e que deve ser tratada em uma ETA antes de sua distribuição.

Com os avanços tecnológicos ocorridos nos últimos anos, hoje podemos produzir água potável na própria estação de tratamento de esgotos (ETE). De água de esgoto a água potável em uma só estação!

A tecnologia de filtração em membranas

Os sistemas modernos de tratamento de esgotos empregam membranas filtrantes construídas com diferentes materiais. Estas apresentam diferentes propriedades de filtração e podem reter desde material particulado em suspensão, células microbianas e até mesmo os vírus que são partículas um milhão de vezes menores que um milímetro.

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Estas membranas podem ser empregadas para a remoção de substâncias indesejáveis dissolvidas na água como óleos, sais e toxinas de cianobactérias. A tecnologia de membranas filtrantes nos permite fazer a obtenção de água de elevado grau de pureza a partir do esgoto urbano ou industrial.

Então, porque não fazemos isso de forma sistemática em todos os municípios com escassez de recursos hídricos? Por uma questão de custos que ainda não são viáveis para vários municípios. As membranas são muito utilizadas em processos de dessalinização da água para consumo. Em cidades litorâneas dos Estados Unidos, Japão e de países do Oriente Médio esta tem sido uma alternativa para aumentar a disponibilidade de água para consumo humano.

Vencendo a barreira psicológica ao reuso da água

Com o uso da metodologia de membranas filtrantes é possível obter água segura para consumo na própria saída da estação de tratamento de esgotos. Você não acha que deveríamos celebrar?

Infelizmente, não é isso que se observa quando um país implanta este tipo de tratamento. A barreira psicológica ao que denominamos de reuso potável direto é muito forte. As pesquisas demonstram que são necessárias campanhas de esclarecimento e programas educacionais que busquem gerar uma associação entre a água de reuso direto com a imagem de água cristalina pré-existente na mente do consumidor. Caso a barreira psicológica não seja vencida, a rejeição não poderá ser vencida e o projeto não terá sucesso! Todo o esforço e investimento terá sido em vão!

A segurança do reuso da água

O ponto chave de qualquer processo de reuso é a segurança. Podemos convencer a população a fazer o reuso da água desde que tenhamos métodos de tratamento e de monitoramento de sua segurança química e microbiológica.

O nível de pureza a ser alcançado dependerá sempre do uso pretendido para a água. Podemos fazer o reuso da água nas nossas atividades diárias domésticas, na indústria, na agricultura, na aquicultura, na recreação, na jardinagem, na lavagem de automóveis, de pisos, etc.

Para garantir a segurança da água de reuso necessitamos de pesquisas que respondam a algumas perguntas, nas nossas condições tropicais brasileiras:

a)    Quais são os microrganismos e os compostos químicos presentes no esgoto a ser tratado?

b)    Quais são as características, a capacidade de sobrevivência, as estruturas de resistência e as toxinas produzidas pelos microrganismos presentes?

c)    Quanto tempo estes microrganismos persistem no esgoto em tratamento e em seu efluente?

d)    Qual a resistência dos mesmos aos métodos de desinfecção disponíveis?

e)    Quais são os compostos químicos presentes, sua concentração, sua toxicidade, solubilidade e processos necessários para sua inativação ou remoção do efluente?

f)     Qual o risco real de contaminação de um usuário por estes produtos e microrganismos no decorrer das atividades de reuso da água?

g)    Quais serão, consequentemente, os limites permitidos de células microbianas e de compostos químicos em água para reuso de modo a garantir a segurança?

h)    Estes limites deverão ser os mesmos para as diferentes oportunidades de reuso?

i)      Os limites a serem estabelecidos deverão levar em consideração os riscos de contato direto e indireto dos usuários com a água, gotículas e aerossóis?

j)      Quais são as medidas preventivas, de eficácia comprovada, a serem adotadas em cada uso pretendido da água de reuso para se evitar a exposição desnecessária do usuário a produtos químicos ou microrganismos?

Além destas questões técnicas, que precisam urgentemente de dados científicos brasileiros compilados, temos as questões legais. Não existem legislações específicas para reuso da água no país até o momento. Questões simples ainda esperam respostas: Quem ou quais instituições serão responsáveis pelo tratamento do esgoto? Quem responderá por eventuais quebras de conformidade com as normas, quando estas forem elaboradas? Quais serão as penalidades? O país liberará o reuso potável e não-potável, ou apenas este último? Não podemos mais esperar! A crise hídrica está longe de estar resolvida.

No nosso capítulo, no livro Águas e Águas, você pode encontrar mais informações sobre estas questões.

Se gostou, compartilhe! Ensinar é nossa grande missão!

 

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Autora: Professora Lucia Cangussu

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Meu nome é Lucia Regina Cangussu da Silva, mineira quase baiana, bióloga, amante da vida, da família, dos amigos, da natureza e da ciência. Sempre adorei estudar e ensinar. Faço isso desde que me entendo por gente! Faço parte do grande grupo dos “nerds”! Já na graduação na UFMG me apaixonei pelo mundo microbiano logo na primeira aula com as Professoras Betinha e Patrícia. Foi realmente um amor à primeira vista e fico sempre me perguntando o motivo, já que os microrganismos nem sempre são tão bons, bonitos e gostosos como se esperaria! Talvez seja porque, como a maioria dos microrganismos, posso quase ser medida em micrômetros. Este mundo invisível sempre me fascinou e não canso de estudá-lo. Tornei-me o que o meu caro professor Humberto Carvalho condenava... estudante profissional! Lamento, Mestre!