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Palestra: Infecções pelo vírus da Zika em animais.

Desde o início da epidemia pelo vírus da Zika no Brasil muito já foi descoberto sobre o vírus, sua transmissão, a sintomatologia e as lesões resultantes da infecção em adultos e, especialmente, em fetos no decorrer da gestação. Estivemos na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora para falar um pouco sobre o vírus da Zika, desta vez para os alunos do Curso de Medicina Veterinária (a distraída aqui esqueceu de tirar a foto no início da palestra. Tive que resgatar os que estavam na porta da sala. Peço desculpas a todos os que não saíram na foto!).

zika-palestra-ufjf2 Eu imagino que eles tenham se indagado porque um tema de saúde humana estava sendo levado para debate com alunos de veterinária e eu espero que agora eles compreendam o motivo. Um primeiro argumento a nosso favor é o de que não podemos nos esquecer de que somos animais. Mas este não foi o principal motivo de nossa presença… Queríamos mostrar para os alunos que o vírus da Zika e os animais possuem uma relação muito antiga e pouco estudada, pelo menos quando se compara com sua relação com o hospedeiro humano.

Iniciamos nossa exposição relatando que o vírus da Zika foi descoberto  na floresta de Zika, localizada em Uganda, no continente africano. Neste local fica localizado o “Zika Forest Research Field Station” e o “Uganda Virus Research Institute”. Em 1947, macacos Rhesus sentinelas foram colocados na floresta e desenvolveram um quadro febril. Mais tarde este quadro febril foi atribuído a este novo vírus, o qual recebeu o nome da floresta onde ele foi inicialmente encontrado. Portanto, desde a sua descoberta o vírus da Zika provou ser capaz de infectar primatas não-humanos em ambientes naturais.

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Segundo o CDC (Centro para Prevenção e Controle de Doenças americano), a doença causada pelo vírus da Zika em primatas é caracterizada por uma febre branda. Os animais produzem anticorpos do tipo IgM (o anticorpo típico da fase aguda das viroses) após o quinto dia da infecção, ficando o título deste anticorpo elevado até o 14o dia após a infecção. Não existem evidências de transmissão direta do vírus da zika de primatas para o homem, mas o CDC recomenda que os primatas importados sejam mantidos em quarentena por 31 dias nas instalações das empresas importadoras para se evitar que macacos infectados venham a ser distribuídos no país e transmitam o vírus para os mosquitos vetores. O CDC afirma, ainda, que não existe relato de microcefalia na prole de primatas infectados.

Em 1948, o vírus foi isolado de um grupo de mosquitos Aedes africanus coletados na floresta de Zika em Uganda. Não podemos nos esquecer de que o vírus da Zika é um arbovírus e isto significa que o mesmo pode ser transmitido pela picada de mosquitos. A lista das espécies de mosquitos que apresentam o RNA do vírus da Zika não para de crescer, contudo, as espécies do gênero Aedes, principalmente o Aedes aegypti, são os principais vetores para a transmissão do vírus ao homem. Pesquisadores da Fiocruz detectaram o vírus na saliva do pernilongo (Culex quinquefasciatus) e isto é, no mínimo, assustador. O vírus da Zika ou o seu material genético já foi obtido de outras espécies de mosquitos dos gêneros Culex, Anopheles e Mansonia (VOROU, 2016).

Levamos cerca de 10 anos, após o relato em macacos Rhesus, para descobrir que o vírus da Zika era capaz de infectar humanos, os quais são também animais. É sempre bom lembrar… Este primeiro relato de infecção humana ocorreu na Nigéria em uma garota que apresentou febre e dores de cabeça.

Um estudo recente em macacos Rhesus foi publicado por Dudley e colaboradores em junho de 2016. Estes autores utilizaram a linhagem asiática do vírus da Zika e demonstraram que o RNA viral (o código genético do vírus da Zika) é detectado em amostras de sangue, saliva, urina e líquido céfalo raquidiano (LCR) um dia após a inoculação subcutânea dos animais e isto foi observado inclusive em fêmeas grávidas. O vírus permaneceu na circulação sanguínea dos animais por 21 dias, mas nas fêmeas grávidas o vírus foi encontrado por pelo menos 57 dias, mostrando que a viremia nestas fêmeas durou muito mais tempo do que nos demais animais infectados. Anticorpos capazes de neutralizarem o vírus da Zika foram encontrados nos animais inoculados 21 dias após a infecção e provaram ser capazes de impedir uma nova infecção pelo vírus da Zika quando este vírus foi re-inoculado nos animais. Portanto, após um primeiro contato com o vírus da Zika os macacos Rhesus geram uma imunidade protetora contra a re-infecção.

No Brasil, o vírus da Zika foi encontrado em saguis (Callithrix jacchus) e em macaco-prego (Sapajus libidinosus) capturados em diferentes regiões do estado do Ceará, sendo que alguns destes animais viviam em grande proximidade aos humanos em cativeiros. Favoretto et al. (2016) analisaram amostras de sangue e da cavidade oral dos animais e constataram que 29% das amostras apresentavam o RNA viral, sendo quatro amostras positivas provenientes de saguis e 3 amostras positivas obtidas de macacos-prego.

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A análise do material genético viral mostrou que o vírus da Zika que estava infectando estas duas espécies animais era 100% similar ao vírus da Zika isolado de infecções humanas no Brasil. Estes achados são extremamente preocupantes, pois comprovam que o vírus poderá estabelecer um ciclo em animais silvestres que servirão, como observado em outros países, de reservatório do mesmo para futuras infecções humanas, dificultando o controle e erradicação desta virose no país.

A maioria dos estudos de infecção pelo vírus da Zika em animais são antigos e utilizaram métodos sorológicos como comprovação de infecção dos animais pelo vírus. Nestes estudos mais antigos, os anticorpos contra o vírus da Zika foram detectados em macacos, patos, cabritos, vacas, cavalos, morcegos, ratos, búfalos, ovelhas, roedores e em orangotangos. Os estudos sorológicos antigos não são confiáveis porque sabemos que existe a possibilidade de resultados falso positivos como consequência da reação cruzada de anticorpos elaborados pelos animais contra outros vírus da família Flaviviridae. A maioria dos estudos iniciais em animais foram conduzidos com primatas em diferentes países do continente africano. Nos estudos mais recentes, a detecção do material genético viral não deixa dúvidas de que os animais estavam realmente infectados pelo vírus da Zika (VOROU, 2016).

Em laboratório foi possível infectar camundongos cujos sistemas imunológicos foram manipulados pra que os mesmos fossem incapazes de realizar algumas ações básicas de combate as infecções virais como a produção de interferons e de seus receptores para entrada das células no “estado anti-viral”, dentre outras ações imunológicas (LAZEAR et al.,2016). Estes modelos animais são “alterados” no sentido de que as infecções pelo vírus da Zika não ocorrem naturalmente nestes animais quando os mesmos apresentam imunidade normal. Por este motivo, as conclusões obtidas nestes estudos são de difícil extrapolação para as infecções em animais ou em humanos imunocompetentes.

Não há relatos de infecções pelo vírus da Zika em aves domesticadas ou em aves silvestres. Você que está lendo este post já deve estar morrendo de medo de seu animal de estimação estar ou ficar infectado pelo vírus da Zika. Eu, particularmente, não descarto nenhuma hipótese sobre este vírus. Apesar do vírus da Zika ser conhecido desde a década de 40, muitos estudos precisam ainda serem conduzidos para que possamos compreender toda a sua gama de hospedeiros naturais e sua patogenia em diferentes espécies animais, inclusive no homem. Por enquanto, vamos acreditar no CDC americano que diz que os “pets” não são infectados pelo vírus da Zika. Acreditar nesta hipótese faz bem ao coração. Vamos assim, vivendo felizes, até que a ciência prove o contrário!

Até a próxima, alunos da vet! Uma última foto para minha fotógrafa não ficar de fora!

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Autora: Professora Lucia Cangussu

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Meu nome é Lucia Regina Cangussu da Silva, mineira quase baiana, bióloga, amante da vida, da família, dos amigos, da natureza e da ciência. Sempre adorei estudar e ensinar. Faço isso desde que me entendo por gente! Faço parte do grande grupo dos “nerds”! Já na graduação na UFMG me apaixonei pelo mundo microbiano logo na primeira aula com as Professoras Betinha e Patrícia. Foi realmente um amor à primeira vista e fico sempre me perguntando o motivo, já que os microrganismos nem sempre são tão bons, bonitos e gostosos como se esperaria! Talvez seja porque, como a maioria dos microrganismos, posso quase ser medida em micrômetros. Este mundo invisível sempre me fascinou e não canso de estudá-lo. Tornei-me o que o meu caro professor Humberto Carvalho condenava... estudante profissional! Lamento, Mestre!