Cangussu News

Acaba de ser publicada a quarta edição do livro Águas e Águas de autoria do Dr. Jorge Antônio Barros de Macedo. Esta é uma obra já consagrada para os profissionais que trabalham com recursos hídricos e com o tratamento da água no Brasil. A quarta edição traz atualizações de temas já abordados na terceira edição e discute temas emergentes sobre a água em um mundo com milhões de habitantes vivendo em áreas que sofrem com a escassez hídrica.

O livro Águas e Águas conta com nove capítulos que abordam os seguintes temas:

  1. Água: comportamento anormal e sua história
  2. Água: o presente e o futuro
  3. Reciclagem, reutilização e reuso
  4. Água para caldeira
  5. Água de resfriamento
  6. Aproveitamento de água de chuva para fins não potáveis/potáveis e industriais
  7. Tratamento convencional para obtenção de água potável
  8. Detergentes e sanificantes: indústria de alimentos
  9. Padrões microbiológicos e segurança da água para consumo e reuso humanos.

Tivemos a honra de sermos convidadas pelo autor para escrever o Capítulo 9 desta edição que trata dos padrões microbiológicos da água para consumo e da segurança microbiológica da água de reuso.

Na primeira parte do capítulo fizemos uma abordagem inicial sobre os desafios encontrados para o fornecimento de água potável, livre de microrganismos patogênicos, para a população mundial. Hoje, mais de 4 bilhões de pessoas já recebem água potável em suas residências. Contudo, mais de 700 milhões de pessoas ainda vivem sem acesso à água de qualidade. A diarreia infantil continua levando 1,5 milhões de crianças a óbito a cada ano, sendo a água de consumo um dos veículos para os agentes patogênicos causadores dessas diarreias. No Brasil, quase 3 milhões de pessoas vivem em residências abastecidas com água não tratada.

A gestão dos recursos hídricos é complexa e envolve necessariamente medidas de preservação e de estímulo ao uso consciente da água disponível. Uma parte considerável da gestão deve ser centrada na garantia da qualidade e da segurança da água fornecida à população o que pode constituir um grande desafio financeiro, tecnológico, político e social, dentre outros.

No Brasil, os padrões microbiológicos da água para consumo humano são estabelecidos pela Portaria No 2.914 de 12 de dezembro de 2011 do Ministério da Saúde que adota os conceitos preconizados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para gestão da qualidade e avaliação sistemática de riscos à saúde incluindo: (a) o controle da qualidade da água, (b) a vigilância da qualidade da água e (c) a garantia da qualidade da água. A potabilidade da água é definida nesta legislação com base em parâmetros físicos, químicos e microbiológicos. A qualidade das águas envasadas, do gelo e da água de aeroportos, portos e fronteiras fica a cargo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

Dentre os fatores de risco encontrados na água para consumo humano encontram-se os microrganismos. Estes podem viver como saprófitas degradando e reciclando os compostos orgânicos presentes na água ou apresentarem a capacidade de agressão ao organismo dos animais, dentre eles o homem. Apesar da diversidade de microrganismos presentes em ambientes aquáticos, não existem comprovações de que todos eles possam causar doenças no homem quando presentes na água. A Organização Mundial da Saúde elaborou uma listagem das bactérias, vírus, protozoários e helmintos para os quais existem evidências significativas de envolvimentos em doenças veiculadas pela água ou doenças de veiculação hídrica. As infecções afetam geralmente o trato gastrointestinal, o sistema respiratório ou a pele.

O texto da Portaria No 2.914 de 12 de dezembro de 2011 não pode ser considerado o mais didático que já tivemos contato em termos de legislação ao longo de nossa carreira universitária como professora de vigilância sanitária. A maior prova de que o texto pecou por clareza é que foi necessária a elaboração de uma apostila com algumas dezenas de páginas só para elucidar as dúvidas enviadas ao Ministério da Saúde. Tentamos organizar os parâmetros microbiológicos a serem avaliados no laboratório e os padrões (valores) a serem alcançados em diversos quadros na ordem que consideramos que facilite a rotina laboratorial: do manancial até a rede de distribuição.

Qualquer alteração dos padrões microbiológicos deve representar um alerta para os que monitoram a qualidade da água bruta, do tratamento e da rede de distribuição. Estas variações podem ocorrer repentinamente e a detecção e caracterização rápida do risco microbiológico são essenciais para a tomada de decisões que garantam a segurança da água produzida para consumo, evitando-se a ocorrência de surtos de doenças veiculadas pela água que podem comprometer a saúde de milhares de usuários.

Para facilitar a compreensão e o acesso à informação da Portaria No 2.914 de 12 de dezembro de 2011, os quadros trazem os artigos, os parágrafos ou os incisos que estabelecem ou tratam de determinado parâmetro desde a captação até a distribuição. Questionamos alguns dos parâmetros e padrões microbiológicos da água para consumo humano estabelecidos pela portaria. Acreditamos que os mesmos devem ser levados em consideração quando de sua revisão.

A segunda parte do capítulo é dedicada à segurança microbiológica da água de reuso proveniente do tratamento de esgotos e da captação da água de chuva, por exemplo. Apresentamos a diversidade de microrganismos (bactérias, vírus, protozoários e helmintos) presentes nestas fontes de água para reuso, os riscos que representam para a saúde dos usuários destas águas e as etapas necessárias para sua eliminação e garantia da segurança para reuso. Vários são os fatores que determinam a eficácia dos processos de tratamento na eliminação dos microrganismos patogênicos da água de reuso, portanto, é essencial que o tratamento e o monitoramento sejam conduzidom com rigor.

Como o Brasil ainda é um país carente de normatização do reuso da água, apresentamos alguns parâmetros e padrões internacionais de água para reuso no intuito de fornecer subsídios para uma discussão mais ampla sobre o tema. Não somos a favor da importação de normas que não se adequam às realidades brasileiras. Defendemos a elaboração de legislações baseadas em dados de pesquisas nacionais após amplo debate com os mais variados setores envolvidos na geração de equipamentos, técnicas, produtos químicos e outros insumos, inclusive de diagnóstico microbiológico e da área ambiental.

Discutimos, em termos de segurança microbiológica, as poucas regulamentações existentes no país encontrando diversos pontos questionáveis e que podem impor riscos à saúde do usuários da água de reuso tanto ao nível público, industrial quanto domiciliar. Devido à escassez de recursos hídricos, tornou-se prática popular a captação e reuso não potável da água de chuva pela população de diversas regiões do Brasil. Para que o reuso da água prospere e se transforme em prática segura no Brasil, necessitamos inicialmente regulamentá-lo. Não podemos deixar as pessoas praticando a captação e o reuso da água de chuva de forma inadequada por desconhecimento das técnicas corretas para captação, tratamento e destinação da água de chuva. O setor público também desconhece muitas vezes os benefícios socioeconômicos e ambientais do reuso da água.

Finalizamos o capítulo, como não podia deixar de ser, enfocando a importância da divulgação científica e da educação para o reuso da água como etapas primordiais para vencermos os estigmas presentes na população quanto ao uso de água “proveniente de esgotos” ou “água da chuva”. Relatamos algumas experiências conduzidas em outros países para vencer a barreira psicológica da população ao reuso.

Contribuições ao tema são muito bem vindas aqui neste site. Se você trabalha na área e deseja divulgar seus resultados, conte conosco! Este espaço no site foi criado para todas as pessoas que gostam da água, que querem conservá-la, usá-la com consciência, divulgar ou aprender mais sobre ela. Entre em contato!

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Autora: Professora Lucia Cangussu

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Meu nome é Lucia Regina Cangussu da Silva, mineira quase baiana, bióloga, amante da vida, da família, dos amigos, da natureza e da ciência. Sempre adorei estudar e ensinar. Faço isso desde que me entendo por gente! Faço parte do grande grupo dos “nerds”! Já na graduação na UFMG me apaixonei pelo mundo microbiano logo na primeira aula com as Professoras Betinha e Patrícia. Foi realmente um amor à primeira vista e fico sempre me perguntando o motivo, já que os microrganismos nem sempre são tão bons, bonitos e gostosos como se esperaria! Talvez seja porque, como a maioria dos microrganismos, posso quase ser medida em micrômetros. Este mundo invisível sempre me fascinou e não canso de estudá-lo. Tornei-me o que o meu caro professor Humberto Carvalho condenava... estudante profissional! Lamento, Mestre!