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Burkholderia-colonia

Burkholderia cepacia em água da indústria farmacêutica.

Quando compramos ou utilizamos um medicamento sob a forma líquida não paramos para pensar em quantos pontos críticos de controle são necessários para sua produção. Achei este relato interessante porque resultou na investigação de um surto de infecção hospitalar causado por uma bactéria do complexo Burkholderia cepacia em uma UTI neonatal em Houston, Texas, EUA, no período de fevereiro a julho de 2016 .

Vinte e quatro pacientes com idade média de 22,5 meses apresentaram resultados positivos nas culturas de amostras provenientes do sistema respiratório (18), hemoculturas (5), uroculturas (4) e coproculturas (3).

Para aqueles que não estão acostumados com estes termos, a hemocultura é uma cultura feita a partir de amostras de sangue, a urocultura a partir de amostra de urina e a coprocultura a partir de amostras fecais.

Destes 24 pacientes, 17 apresentaram sintomas de infecção e 7 ficaram colonizados pela bactéria sem o desenvolvimento de qualquer sintomatologia.

Todos os pacientes da UTI neonatal infectados pela Burkholderia cepacia apresentavam algum fator de risco importante para infecções hospitalares como traqueostomia, cateter central, transplante de órgão sólido, doenças cardiovasculares, malignidades, dentre outras. A grande maioria (79%) necessitava do uso de respiradores mecânicos.

Todos os procedimentos de higienização foram revisados e auditados (mãos, equipamentos, respiradores, etc) sem a detecção de não-conformidades significativas. A água utilizada nos procedimentos passou a ser esterilizada. Um dos produtos utilizados em múltiplos pacientes era o gel do ultrassom que passou a ser fornecido em frascos individualizados. Estas medidas não interromperam o surgimento de novos casos.

O envio dos isolados bacterianos obtidos em cultura para um laboratório de referência mostrou que 21 dos 24 isolados bacterianos pertenciam à mesma linhagem. A linhagem envolvida no surto não estava catalogada na coleção do laboratório de referência que já tinha 20 anos de existência! Este era um fato intrigante! Três isolados eram de uma linhagem distinta.

Burkholderia-cepacia

A detecção da linhagem de Burkholderia cepacia nas fezes serviu de alerta de que a infecção poderia estar ocorrendo por via oral. A equipe decidiu fazer culturas em todos os artigos utilizados na higienização oral das crianças e de todos os medicamentos aplicados por esta via. As culturas apresentaram resultados negativos para água, pinças e demais produtos utilizados na higienização oral.

Um outro achado interessante sobre a linhagem de Burkholderia cepacia detectada neste surto foi a susceptibilidade a ceftazidima e ao sulfametoxazol + trimetoprima. As linhagens hospitalares desta bactéria tendem a ser multirresistentes aos antimicrobianos e este era mais sensível sugerindo uma origem comunitária.

No dia 03 de maio, o laboratório de referência notificou a equipe do hospital que haviam encontrado a mesma linhagem de Burkholderia cepacia em material enviado por uma outra unidade pediátrica localizada em outra região geográfica. A melhor explicação para este achado era a de que as duas instituições haviam recebido algum lote contaminado de um produto de uso comum.

Em 22 de junho, o laboratório encontrou a nova linhagem de Burkholderia cepacia em uma cultura feita com o conteúdo de uma ampola fechada de Docusato líquido, um regulador da motilidade intestinal, manufaturado pela empresa Pharmatech. Este tipo de medicamento laxativo era empregado para auxiliar os pacientes que apresentavam constipação ou diminuição da motilidade intestinal na unidade neonatal.

O número de doses médias necessárias para o surgimento dos sintomas de infecção foi de 13,5 e as culturas se tornaram positivas por volta de 16,5 dias. Muitas crianças foram expostas ao medicamento e apenas 50% das que foram investigadas desenvolveram sintomas da infecção. Este achado evidencia que a a carga microbiana e as condições do hospedeiro foram fatores determinantes do estabelecimento da infecção.

Em 12 de outubro de 2016 o FDA declarou que havia encontrado Burkholderia cepacia em 10 lotes do medicamento Docusato e também no sistema de distribuição de água da indústria do fabricante. O fornecedor de matéria prima se negou a deixar os técnicos do FDA entrarem em sua fábrica na India e foi banido da lista de fornecedores para a indústria americana. O surto ainda continua sob vigilância.

Acredito que este relato ilustra muito bem como pode ser complexa e dispendiosa a investigação de um surto de infecção hospitalar e também a importância do controle da qualidade da água na indústria farmacêutica para a produção de medicamentos.

Se você quiser aprender um pouco mais sobre esta bactéria na água que consumimos, consulte o Atlas de Microbiologia da Água neste mesmo site.

Fonte: https://doi.org/10.1017/ice.2017.11

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Um grande abraço!

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Autora: Professora Lucia Cangussu

prof

Meu nome é Lucia Regina Cangussu da Silva, mineira quase baiana, bióloga, amante da vida, da família, dos amigos, da natureza e da ciência. Sempre adorei estudar e ensinar. Faço isso desde que me entendo por gente! Faço parte do grande grupo dos “nerds”! Já na graduação na UFMG me apaixonei pelo mundo microbiano logo na primeira aula com as Professoras Betinha e Patrícia. Foi realmente um amor à primeira vista e fico sempre me perguntando o motivo, já que os microrganismos nem sempre são tão bons, bonitos e gostosos como se esperaria! Talvez seja porque, como a maioria dos microrganismos, posso quase ser medida em micrômetros. Este mundo invisível sempre me fascinou e não canso de estudá-lo. Tornei-me o que o meu caro professor Humberto Carvalho condenava... estudante profissional! Lamento, Mestre!