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Será que uma virose afeta sua reação ao glúten?

Que os vírus e o glúten podem causar danos ao seu intestino já é fato conhecido, mas que os dois juntos podem piorar esta história, isto é a novidade. Certos indivíduos apresentam predisposição genética a desenvolverem uma intensa resposta inflamatória intestinal quando expostos a alimentos que contém o glúten, uma proteína encontrada no trigo e na cevada, por exemplo.

Esta é uma das razões pelas quais o glúten se tornou um vilão, fato comum de ocorrer com alimentos. É óbvio que você se lembra que comer ovo era quase uma sentença de morte, como se ela não fosse certa. Bem fazia o meu sogro que nunca deixou de comer ovos cozidos no café da manhã e não se convencia de que o ovo fazia mal à saúde. A fama de vilão do glúten divulgada nas mídias fez com que um número expressivo de brasileiros optassem por uma dieta livre de glúten, muitas vezes sem saberem se realmente precisam evitar esta proteína e sem entenderem necessariamente o porquê. Tem gente que acha que é para ficar magrinho e lindinho! Modismo nutricional é um inferno! As nutricionistas que o digam! Consulte uma nutricionista quando desejar mudar seu hábito alimentar. Elas estudam para nos auxiliarem nestas questões que não entendemos bem.

A resposta imune contra o glúten danifica a mucosa intestinal gerando uma doença crônica intestinal denominada de Doença Celíaca . Esta doença afeta aproximadamente 1% da população mundial e calcula-se que para cada 400 brasileiros um seja celíaco. A predisposição genética é essencial ao desenvolvimento da doença, mas fatores ambientais devem estar envolvidos no seu desencadeamento. Um dos motivos para suspeitarmos disso é que a doença celíaca não ocorre com a mesma frequência em populações com predisposição genética. Então, será que o gatilho é ambiental?

O que é necessário para disparar a doença celíaca em indivíduos geneticamente propensos?

Por que certos indivíduos com predisposição genética para a doença celíaca inflamam o intestino na presença do glúten quando outros indivíduos disparam uma resposta oposta e anti-inflamatória? Eis a questão!

Como os vírus são sempre acusados de tudo aquilo que a gente não sabe como explicar é óbvio que neste caso eles também sempre foram os maiores suspeitos. Vários vírus já entraram na lista de suspeitos como os vírus Epstein-Barr, o vírus sincicial respiratório, o vírus da hepatite C, dentre outros.

O difícil é provar que foi um dado vírus que alterou a resposta imune e desencadeou as manifestações clínicas de uma doença crônica com um envolvimento imunológico como a doença celíaca. Se levarmos em consideração que nem todas as infecções virais são sintomáticas veremos que é muito difícil que o médico suspeite ou comprove o envolvimento de uma infecção viral prévia com o desenvolvimento da doença celíaca por seus pacientes. É justamente aí que entra a ciência e os cientistas.

Em um estudo conduzido em camundongos, os pesquisadores mostraram que uma infecção por reovírus, que são vírus que causam infecções assintomáticas no intestino humano, pode alterar a forma como as células do sistema imune respondem à presença de moléculas ingeridas por via oral, inclusive o glúten.

Tentar simplificar estudos complexos não é fácil, mas vou tentar. Eles demonstraram que as células que induzem a nossa tolerância aos compostos presentes nos alimentos (células dendríticas) presentes na mucosa intestinal são modificadas pela infecção intestinal por reovírus. Ao invés de induzirem a resposta anti-inflamatória e reguladora da imunidade intestinal, elas passam a adotar um perfil que induz a inflamação intestinal. As respostas imunes inflamatórias são a base da lesão intestinal em pacientes com doença celíaca.

Em camundongos que apresentam predisposição genética ao desenvolvimento da doença celíaca, os pesquisadores observaram que se infectados com o reovírus e alimentados com glúten por via oral, perdem a tolerância ao glúten e começam a produzir anticorpos anti-gliadina que são um marco imunológico da intolerância ao glúten.

Os animais que não são infectados por reovírus, apesar de apresentarem a predisposição genética, continuam com uma resposta anti-inflamatória e protetora da mucosa intestinal, mesmo sendo alimentados com glúten. O que isto quer dizer? Que a infecção por reovírus pode disparar a sensibilidade ao glúten em animais com predisposição genética.

A infecção por reovírus em camundongos resultou no aumento da ativação de uma enzima chave na sensibilidade ao glúten denominada Transglutaminase 2 (TG2). Esta enzima se liga à glutamina, um aminoácido presente em fragmentos do glúten (peptídeos) no intestino, convertendo-a em ácido glutâmico que tem carga negativa. Esta alteração de carga aumenta a afinidade do peptídeo do glúten por moléculas presentes na superfície das células dendríticas (HLA ou MHC) que são utilizadas para a apresentação destes peptídeos para os linfócitos de nosso sistema imune. Por esta razão, as células dendríticas são classificadas como células apresentadoras de antígenos ou APC.

Fonte: MERESSE, MALAMUT e CERF-BENSUSSAN, 2012
Fonte: MERESSE, MALAMUT e CERF-BENSUSSAN, 2012

Os peptídeos de glúten agora ligados no HLA na superfície da APC podem provocar a ativação dos linfócitos. Estes, uma vez ativados, proliferam e coordenam a resposta do sistema imune contra o glúten, desencadeando a inflamação, a proliferação de células que perfuram o revestimento intestinal, a produção de anticorpos anti-gliadina que atuarão em conjunto na geração da lesão da mucosa intestinal.

Será que o mesmo é verdadeiro para humanos? Os autores do estudo detectaram que pacientes com doença celíaca apresentam maior concentração de anticorpos contra reovírus, alguns com valores muito elevados e estes apresentaram indícios de elevação de moléculas indutoras da inflamação que foram encontradas nos camundongos infectados pelo reovírus e que talvez os mesmos mecanismos de quebra da tolerância ao glúten e alteração da resposta imunológica possam ocorrer em humanos.

Este estudo sugere que as infecções virais assintomáticas podem alterar a tolerância a compostos (antígenos) presentes nos alimentos e desencadearem a quebra do equilíbrio imunológico da mucosa intestinal induzindo a inflamação e o dano intestinal.

Este foi o mais simples que consegui deixar essa complicada interação vírus-hospedeiro-glúten para você. Espero que você tenha entendido que os reovírus não apenas infectam o homem, mas alteram a forma como as células de nosso sistema imune reagem aos fatores ambientais, neste caso, o glúten presente em alguns de nossos alimentos.

Se gostou, compartilhe! A doença celíaca afeta 1 em cada 400 brasileiros e eles certamente adorariam saber disso!

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Um grande abraço e até breve!

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Autora: Professora Lucia Cangussu

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Meu nome é Lucia Regina Cangussu da Silva, mineira quase baiana, bióloga, amante da vida, da família, dos amigos, da natureza e da ciência. Sempre adorei estudar e ensinar. Faço isso desde que me entendo por gente! Faço parte do grande grupo dos “nerds”! Já na graduação na UFMG me apaixonei pelo mundo microbiano logo na primeira aula com as Professoras Betinha e Patrícia. Foi realmente um amor à primeira vista e fico sempre me perguntando o motivo, já que os microrganismos nem sempre são tão bons, bonitos e gostosos como se esperaria! Talvez seja porque, como a maioria dos microrganismos, posso quase ser medida em micrômetros. Este mundo invisível sempre me fascinou e não canso de estudá-lo. Tornei-me o que o meu caro professor Humberto Carvalho condenava... estudante profissional! Lamento, Mestre!