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Produtos naturais ou metronidazol para o tratamento da vaginose bacteriana?

O uso de plantas medicinais ou de compostos extraídos das mesmas é apresentado como uma alternativa viável ao uso dos antibióticos para o tratamento das infecções, inclusive da vaginose bacteriana, em vários países do mundo, pois o avanço da resistência aos antibióticos convencionais é inquestionável.

A vaginose bacteriana é uma das infecções mais comuns em mulheres em idade reprodutiva ocorrendo em 8% a 51% das mulheres em idade reprodutiva em diferentes populações do mundo, podendo ser assintomática em 50 a 75% dos casos.

Quando a infecção é sintomática, há relato de corrimento vaginal branco a esverdeado, com odor desagradável, geralmente associado à odor de peixe, o qual se intensifica, especialmente, após as relações sexuais desprotegidas ou durante o período menstrual.

A vaginose bacteriana pode resultar em graves complicações como ruptura da membrana amniótica antes do término da gestação, parto pré-termo, endometriose, neoplasia intraepitelial cervical, infertilidade e dor pélvica recorrente.

A vaginose bacteriana está associada à redução da população de bactérias benéficas do gênero Lactobacillus (Figura 01) que habitam o canal vaginal de mulheres em idade reprodutiva (bactérias na forma de bastão corados em roxo na imagem). Os lactobacilos degradam o glicogênio presente nas secreções vaginais produzindo o ácido láctico que mantêm o ambiente do canal vaginal acidificado e com um pH abaixo de 4,5. Esta ação dos lactobacilos impede a proliferação de microrganismos neutrofílicos e que não toleram a acidez gerada no canal vaginal.

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Figura 01 – Esfregaço vaginal normal.

Com a diminuição dos Lactobacillus ocorre também uma queda na produção de H2O2 (peróxido de hidrogênio), conhecido popularmente como água oxigenada. Este composto, assim como as bacteriocinas produzidas pelos lactobacilos, tem efeito antimicrobiano eliminando microrganismos “indesejáveis” do canal vaginal.

Quando ocorre a diminuição da produção de peróxido de hidrogênio e de bacteriocinas pode ocorrer a proliferação de bactérias anaeróbias dos gêneros Gardnerella, Prevotella, Peptostreptococcus e Bacteroides spp, assim como as do gênero Mycoplasma. Estas bactérias estão comumente associadas aos quadros de vaginose bacteriana e podem atingir contagens de 100 a 1000 vezes acima das normalmente encontradas no canal vaginal em decorrência de uma proliferação excessivamente elevada.

Como se diagnostica a vaginose bacteriana?

O diagnóstico da vaginose bacteriana pode ser feito por critérios clínicos e laboratoriais. Um dos mais usados são os critérios introduzidos por Amzel e colaboradores em 1983  . Segundo estes autores, a presença de três dentre os quatro critérios por eles estabelecidos permite diagnosticar a vaginose bacteriana.

Os quatro critérios de Amzel são:

  1. O aumento na liberação de muco vaginal.
  2. Secreção vaginal com pH acima de 4,5.
  3. Odor de amina quando se mistura uma gota de secreção vaginal e uma gota de solução de Hidróxido de potássio a 10%.
  4. A presença de “Clue cells” (células epiteliais com numerosos tipos bacterianos aderidos) em preparações à fresco de amostra vaginal (Figura 02).

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Figura 02 – Modificado de: https://www.std.uw.edu/go/syndrome-based/vaginal-discharge/core-concept/all

A segunda forma de diagnosticar a vaginose bacteriana é através dos critérios de Nugent que foi desenvolvido em 1991. Este sistema é baseado no preparo de uma lâmina com o esfregaço vaginal que é submetida à coloração de Gram. A lâmina é submetida à análise microscópica para determinação do número de campos em que se detecta células bacterianas que podem ser associadas morfologicamente aos Lactobacillus sp., assim como a presença de outros tipos morfológicos relacionados as bactérias anaeróbias comumente presentes nas pacientes com vaginose bacteriana como as dos gêneros Gardnerella, Prevotella e Mobiluncus.

Utiliza-se uma tabela para conferir uma pontuação de 0 a 10 de acordo com as células microbianas observadas na lâmina da paciente. Valores de 7 a 10 revelam a presença da vaginose bacteriana. Este é considerado o padrão ouro para o diagnóstico da vaginose bacteriana por ser totalmente laboratorial. Contudo, o profissional que realiza a leitura da lâmina deve ser muito bem treinado.

Qual é o tratamento recomendado para a vaginose bacteriana?

O metronidazol é considerado o medicamento de primeira linha para o tratamento da vaginose bacteriana pelo seu conhecido efeito sobre anaeróbios. Contudo, o uso do metronidazol pode estar associado a efeitos adversos como diarreia, vômito, gosto metálico na boca, dores de cabeça e tonteira. Os efeitos sobre o trato gastrointestinal podem ser intensos a ponto de justificar a suspensão do tratamento.

O segundo fármaco indicado para o tratamento da vaginose bacteriana é a clindamicina que também pode gerar efeitos adversos como cólicas abdominais, colite por Clostridium difficille, náuseas, vômito, diarreia e alterações em enzimas hepáticas.

Além destes problemas, estes dois tratamentos não eliminam todas as bactérias associadas à vaginose bacteriana do canal vaginal, ocorrendo recidiva da infecção em 30 a 40% das mulheres tratadas com estes fármacos.

Existem tratamentos alternativos para a vaginose bacteriana?

A busca por tratamentos menos tóxicos e mais eficazes para a vaginose bacteriana já está bem documentado na literatura. Encontramos estudos sobre o uso em separado ou em associação com o metronidazol de algumas plantas medicinais para o tratamento desta doença.

Estes estudos randomizados utilizaram mulheres com vaginose e foram realizados na sua grande maioria em países do oriente médio. Um destes estudos comparou a eficácia da murta comum (Myrtus communis) com a do metronidazol.  A combinação do metronidazol e da murta teve eficácia estatisticamente superior ao do metronidazol sozinho. Além disso, a adição de 2% de  murta ao gel evitou a recidiva da vaginose que foi observada em 30% das mulheres que foram tratadas apenas com metronidazol.

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Figura 03: Plantas medicinais utilizadas para o tratamento da vaginose bacteriana (a) murta, (b) zatara e (c) aroeira.

Uma planta semelhante ao tomilho, a Zataria multiflora, foi utilizada em um creme vaginal e apresentou efeitos terapêuticos equivalentes ao do gel de metronidazol sobre a vaginose bacteriana.  Os autores deste estudo defendem que esta planta pode representar uma alternativa interessante ao uso do metronidazol em mulheres que apresentam efeitos adversos consideráveis ou que buscam tratamentos mais naturais para suas infecções.

Estas duas plantas não são nativas do Brasil, contudo encontramos um estudo feito com gel de aroeira (Schinus terebinthifolius) no qual a taxa de cura foi de 84% e no qual as pacientes tratadas apresentaram um aumento significativo na população benéfica de Lactobacillus em comparação com o grupo de mulheres tratadas com placebo.

Este post foi iniciado quando um microbiologista muito querido nos enviou um artigo sobre a utilização do alho para o tratamento da vaginose bacteriana. No Brasil, as cápsulas de alho são facilmente encontradas nas prateleiras de farmácias.

Vários efeitos benéficos do alho sobre a saúde humana já foram relatados como efeitos imunomodulatórios e anti-inflamatórios, redução do colesterol e dos triglicerídeos, prevenção da aterosclerose e de doenças cardiovasculares  , dentre outros.

2229779-img-cesnek-v0O alho é rico em compostos sulfurados e em selênio. A aliina é a substância inodora presente no alho e que apresenta propriedades antimicrobianas. Quando cortamos ou amassamos um dente de alho ela entra em contato com a enzima aliinase e é convertida em alicina, a substância que confere o odor típico do alho. O efeito antimicrobiano resulta de sua ação oxidante, provocando a interrupção da síntese de RNA, de proteínas e de várias enzimas bacterianas.

O artigo que me foi enviado relatava um estudo randomizado que foi conduzido com 120 mulheres, com idade variando de 18 a 44 anos, diagnosticadas com vaginose bacteriana. Estas mulheres foram separadas em dois grupos e foram tratadas oralmente com cápsulas de alho ou com metronidazol, por um período de sete dias.

Ao final do tratamento, o uso das cápsulas de alho provocou uma melhora dos parâmetros clínicos estabelecidos pelos critérios de Amsel (corrimento, odor e pH) em 70% das mulheres que receberam este tratamento. Este efeito foi significativamente superior ao do metronidazol que causou melhora de 48,3% das pacientes tratadas.

Quando os critérios de Nugent (as populações microbianas predominantes em lâminas com esfregaço vaginal) foram avaliados, não houve diferença estatisticamente significativa entre os dois tratamentos. Isto revela que a microbiota não foi alterada e revertida para o predomínio de espécies benéficas do gênero Lactobacillus e que a recidiva da vaginose poderá ocorrer com os dois tratamentos.

O tratamento da vaginose bacteriana com as cápsulas de alho resultou em menores efeitos adversos.  5% das pacientes tratadas com as cápsulas de alho relataram náuseas. Contudo, nenhuma delas relatou vômito, diarreia, dor de cabeça, gosto metálico ou irritação na pele que foram relatados em 1,7%, 1,7%, 6,7%, 11,7% e 1,7% das mulheres tratadas com metronidazol. Neste caso, as diferenças foram estatisticamente significativas comprovando que o tratamento com o alho pode ser uma alternativa para mulheres que apresentam baixa tolerância ao metronidazol.

Outros efeitos antimicrobianos do alho em microrganismos que infectam o canal vaginal

As cápsulas de alho são capazes de inibir em laboratório a multiplicação e a movimentação de Trichomonas vaginalis, o protozoário que causa a tricomoníase que é uma doença sexualmente transmissível. Esta inibição foi equivalente à do metronidazol. Este é um dado importante visto que já existem relatos de resistência deste protozoário ao metronidazol.  .

Por outro lado, o uso de até 3 cápsulas de alho/2x ao dia, não teve efeito sobre a colonização do canal vaginal pelo fungo causador da candidíase, apesar de ser inibitório para este fungo in vitro, no laboratório.

O que podemos concluir sobre este tema?

Apesar dos resultados animadores de algumas das pesquisas conduzidas com produtos naturais para o tratamento da vaginose bacteriana, ainda não temos dados suficientes que nos permitam concluir, com base em evidências clínicas e laboratoriais, que estes tratamentos são seguros e eficazes.

Estudos sistematizados e meta-análises deparam com várias das limitações dos estudos já realizados como: falta de padronização metodológica, ausência do uso de placebo como controle em alguns estudos, variabilidade dos compostos e das formulações testadas, duração do tratamento, forma de administração, condição inicial das pacientes, dentre outros fatores.

Esperamos que, em futuro próximo, estudos com um delineamento mais arrojado sejam conduzidos sobre os efeitos destes e de outros produtos naturais sobre a vaginose bacteriana e que os mesmos possam vir a ser rotineiramente utilizados no tratamento clínico destas infecções.

Enquanto estes avanços vão ocorrendo, lembre-se de NUNCA praticar a automedicação. Consulte o(a) seu ginecologista e discuta com ele(a) os tratamentos disponíveis apresentados aqui. Ele(a) é o profissional qualificado para lhe dizer o que você deve ou não usar para o tratamento da vaginose bacteriana.

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Um abraço carinhoso e até breve!

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Autora: Professora Lucia Cangussu

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Meu nome é Lucia Regina Cangussu da Silva, mineira quase baiana, bióloga, amante da vida, da família, dos amigos, da natureza e da ciência. Sempre adorei estudar e ensinar. Faço isso desde que me entendo por gente! Faço parte do grande grupo dos “nerds”! Já na graduação na UFMG me apaixonei pelo mundo microbiano logo na primeira aula com as Professoras Betinha e Patrícia. Foi realmente um amor à primeira vista e fico sempre me perguntando o motivo, já que os microrganismos nem sempre são tão bons, bonitos e gostosos como se esperaria! Talvez seja porque, como a maioria dos microrganismos, posso quase ser medida em micrômetros. Este mundo invisível sempre me fascinou e não canso de estudá-lo. Tornei-me o que o meu caro professor Humberto Carvalho condenava... estudante profissional! Lamento, Mestre!