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Anticorpos contra o vírus da dengue facilitam a infecção pelo vírus da Zika.

Evidências laboratoriais de que uma infecção anterior pelo vírus da dengue pode aumentar a severidade da infecção pelo vírus da Zika começam a surgir na literatura científica. Esta tem sido uma das hipóteses para explicar os quadros graves resultantes da infecção pelo vírus da Zika que vêm sendo relatados na epidemia da virose no Brasil e em outros países da América Latina.

O vírus da zika é conhecido dos cientistas desde a década de 40, mas a atenção sobre o vírus e sobre esta virose só aumentou quando começaram a surgir evidências de complicações neurológicas graves da infecção pelo vírus da Zika como a síndrome de Guillain-Barré e a microcefalia, dentre outras lesões neurológicas.

Os vírus da dengue e o vírus da Zika pertencem à mesma família, a família Flaviviridae, sendo, portanto, bastante semelhantes e transmitidos por mosquitos do gênero Aedes. Os pesquisadores já conheciam um fenômeno imunológico que ocorre em pacientes que são infectados por mais de um sorotipo de vírus da dengue ao longo de sua vida. Nestes pacientes os anticorpos produzidos em uma infecção contra um dado sorotipo do vírus da dengue facilita a penetração das partículas virais do novo sorotipo em células humanas como demonstrado na figura abaixo. O fenômeno é denominado “Antibody-dependent enhancement” (ADE) e foi uma das grandes descobertas em relação à dengue. Este fato leva as pessoas a indagarem se é verdade que um indivíduo terá uma dengue mais grave se for infectado novamente ou se a segunda dengue é mais grave que a primeira. Este tipo de facilitação foi detectado em relação ao vírus da Zika em cultura de células em laboratório expostas simultaneamente ao vírus da Zika e a anticorpos monoclonais (produzidos em laboratório) ou a anticorpos obtidos de indivíduos imunes ao vírus da dengue.

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Estudos de caso controle ainda estão em condução para testar se a coinfecção (infecção simultânea pelo vírus da dengue e pelo vírus da Zika) ou a infecção pregressa com um dos sorotipos do vírus da dengue pode alterar a gravidade e, consequentemente, os resultados finais da infecção pelo vírus da Zika.  O estudo realizado na Flórida utilizou células em cultura, mas forneceu evidências bastante convincentes de que o processo de facilitação por anticorpos (ADE) pode ocorrer nas infecções pelo vírus da Zika. Nos experimentos em laboratório, estes pesquisadores investigaram se anticorpos humanos neutralizantes do vírus da dengue ou se soro de pacientes imunes à dengue tem algum impacto na infecção do vírus da zika em cultivo celular. Os testes iniciais revelaram que anticorpos monoclonais (de extrema pureza) contra o vírus da dengue reagem de forma cruzada, mas não neutralizam o vírus da zika impedindo a infecção das células. Ao contrário, os anticorpos aumentam a infecção das células pelo vírus da Zika. Os testes também mostraram que o soro de indivíduos imunes à dengue pode neutralizar em graus variados o vírus da zika, mas pode também propiciar uma intensificação da infecção das células pelo vírus da Zika.

Estes dados revelam que uma imunidade pré-existente contra o vírus da dengue poderá intensificar e agravar a infecção pelo vírus da Zika e alterar a severidade do quadro clínico desenvolvido pelo paciente. Esta interação já era suspeitada há algum tempo, mas não possuíamos nenhuma comprovação laboratorial. Este achado de facilitação por anticorpos revelam a complexidade que as infecções por flavivírus terá cada dia mais em países como o Brasil. Por exemplo, esses pesquisadores levantam a hipótese de que este fenômeno poderia fazer com que o vírus da Zika se dissemine mais facilmente e persista de forma mais intensa em áreas geográficas onde a dengue já é endêmica. Os pesquisadores afirmam também que esses achados têm implicações no desenvolvimento de vacinas contra os vírus da dengue e o vírus da Zika, pois talvez uma vacina única pudesse ser gerada para proteger contra os dois flavivírus. Teremos que aguardar o avanço das pesquisas para que possamos entender as consequências das respostas imunológicas em coinfecções ou em infecções sucessivas por diferentes membros da família Flaviviridae e até mesmo por outros vírus circulantes nas populações de países tropicais.

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Autora: Professora Lucia Cangussu

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Meu nome é Lucia Regina Cangussu da Silva, mineira quase baiana, bióloga, amante da vida, da família, dos amigos, da natureza e da ciência. Sempre adorei estudar e ensinar. Faço isso desde que me entendo por gente! Faço parte do grande grupo dos “nerds”! Já na graduação na UFMG me apaixonei pelo mundo microbiano logo na primeira aula com as Professoras Betinha e Patrícia. Foi realmente um amor à primeira vista e fico sempre me perguntando o motivo, já que os microrganismos nem sempre são tão bons, bonitos e gostosos como se esperaria! Talvez seja porque, como a maioria dos microrganismos, posso quase ser medida em micrômetros. Este mundo invisível sempre me fascinou e não canso de estudá-lo. Tornei-me o que o meu caro professor Humberto Carvalho condenava... estudante profissional! Lamento, Mestre!